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ToggleQuando falamos de cinema estamos acostumados a ver e ouvir sobre eventos de grande envergadura e principalmente sobre franquias de milhões de dólares. Mas enquanto o mundo discute isso, há um festival em Maputo que há dezasseis anos faz uma coisa muito mais difícil: dar palco a quem ainda não tem nome.
O Kugoma – Fórum de Cinema de Moçambique é o mais antigo festival de cinema do país, e a 16.ª edição decorreu entre 30 de Agosto e 5 de Setembro de 2026, com a Gala de Premiação a fechar o programa.
Este artigo explica o que é o Kugoma, como funciona, quem venceu esta edição e o que mudou em 2026 — incluindo uma novidade que aconteceu pela primeira vez na história do fórum.
O que é o Kugoma?
Kugoma é um festival moçambicano de cinema, sobretudo de curta metragem, com o objetivo claro de : promover realizadores emergentes moçambicanos e africanos, e criar novos públicos para o cinema.
Como se pode ver, não é um festival de estrelas de cinema de tapetes vermelhos, combinando sessões de sala e ao ar livre, com workshops, masterclasses e exibições em escolas.
Alguns dados que ajudam a entender a escala:
- É o festival de cinema mais antigo de Moçambique, com dezasseis anos de actividade
- Aceita curtas de realizadores moçambicanos e africanos, no continente e na diáspora
- Todos os géneros são elegíveis — documentário, ficção e ensaio, em imagem real ou animação
- Duração máxima: 30 minutos
- Em 2020 e 2021 teve duas edições online por causa da pandemia, regressando ao formato presencial em 2022
Outro detalhe interessante a destacar sobre a filosofia do fórum é que os prémios não são monetários, mas o valor está na visibilidade e no reconhecimento pelos pares. Por essa razão, este festival é marcado pela participação daqueles que realmente têm paixão pelo cinema, e que não estão a busca de cheques como o seu objectivo primordial.
Onde decorreu a última edição
A última edição do Kugoma foi a 16ª, tendo ocorrido entre 30 de Agosto e 5 de Setembro de 2026 por vários espaços de Maputo, em vez de se concentrar num único auditório.
O palco principal foi o Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), onde também se realizou a Gala de Premiação. Mas a programação passou também pelo Museu Mafalala, pelo Chapa 100 e pela plataforma online Netkanema.
A ideia é simples. Se quer se criar público novo, a melhor opção é ir onde o público está, e não esperar que ele venha por si.
Os vencedores do Kugoma 2026
Para a edição de 2026, a Gala de Premiação distinguiu vários jovens cineastas e profissionais do audiovisual, os passamos a destacar a seguir.
Prémio Novos Autores Moçambique, que foi para Assane Ramadane, com A Última Travessia, uma curta metragem sobre migração ilegal e o tráfico de pessoas. O filme fez tricampeonato, tendo arrecadado também os prémios de Melhor Tratamento de Som e Melhor Pitch.
Prémio Novos Autores PALOP, vencido pela realizadora são-tomense Jéssica Lima. Visivelmente emocionada no palco do CCFM, dedicou a vitória à mãe, que tinha chegado a Moçambique apenas quatro horas antes para assistir à cerimónia e a quem creditou ter visto nela algo que ela própria ainda não tinha visto.
Concorreram também nesta categoria Grace Ribeiro, de Cabo Verde, e Denilson Nzala, de Angola. O júri foi composto por Emília Wojciechowska (Cabo Verde), Gabi Ueno e António Maxlhaieie, director de produção do Kugoma.
Prémio Destaque Afro-Brasil Atribuído à curta brasileira Um Oceano Inteiro, produzida por Carolina Porto e realizada por Carine Fiúza e Bruna Dias.
A gala incluiu ainda a entrega dos Prémios Maxfilm Creative, que distinguem categorias técnicas como melhor realizador, melhor actor, melhor actriz, melhor fotografia e melhor director de caracterização.
O FilmLab Moçambique foi a Novidade
O Kugoma 2026 integrou pela primeira vez as actividades do FilmLab Moçambique, que arrancou a 24 de Agosto em Maputo.
Promovido pela Rede de Cinema e Audiovisual PALOP+TL em colaboração com o Kugoma, é um laboratório que, segundo a Voz do Arquipélago, destina-se a apoiar o desenvolvimento de novos projectos cinematográficos de jovens realizadores dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e de Timor-Leste.
É uma mudança de natureza, não apenas de programa, por um festival exibe filmes feitos e um laboratório ajuda a fazer os que ainda não existem. Então podemos esperar muito mais pra as próximas edições do Kugoma.
A homenagem a José Cardoso e os 40 anos do cinema moçambicano
Uma das actividades mais interessantes da edição foi um workshop de crítica de cinema realizado a 1 de Setembro, no Museu Mafalala, orientado pelo jornalista Leonel Matusse Jr.
O centro da sessão foi José Cardoso, cineasta e intelectual moçambicano — e a data não é casual. Como assinalou o Jornal Notícias, a actividade marcou os 40 anos de O Vento Sopra do Norte (1986), a primeira longa-metragem moçambicana, realizada por Cardoso.
Mas o foco do workshop não foi a longa. Foram três curtas que Cardoso realizou na década de 1960, ainda na Beira: O Anúncio, Pesadelo e Raízes.
A escolha tem lógica dupla. Por um lado, o valor artístico e histórico das obras. Por outro, a relação directa com a génese do próprio Kugoma, que nasceu precisamente da valorização da curta-metragem.
Segundo a organização, apesar da importância destas obras na história da cinematografia nacional, continuam pouco conhecidas do grande público e o exercício pretendeu contribuir para recuperar essa memória e recordar o papel dos cineclubes no desenvolvimento do cinema moçambicano.
A forte presença cabo-verdiana
A curta documental Guentis Fonte Lima, realizada por Ricardo Leote, teve ante-estreia oficial a 4 de Setembro, no CCFM, numa sessão especial dedicada aos PALOP. O filme é, seguindo o Expresso das Ilhas, uma produção da Nos Raiz em parceria com a Insular Films, e retrata a identidade e a força das mulheres oleiras da ilha de Santiago.
O público viu também Devagarim, a mais recente curta de Grace Ribeiro, e quatro animações de um minuto feitas por colectivos de estudantes cabo-verdianos: Lulas Viajantes, As Cabrinhas, O Nin e Pé d’ Mot.
Como submeter um filme ao Kugoma
Qualquer pessoa que faz cinema em Moçambique ou em outro país africano pode submeter as suas realizações à organização do Kugoma nas modalidades apresentadas a seguir.
As curtas-metragens submetem-se através da plataforma FilmFreeway, dentro do prazo anunciado pela organização. Na edição de 2026, a janela decorreu entre 18 de Maio e 30 de Junho. Para as próximas edições, basta ficar atendo aos anúncios nas diversas plataformas de imprensa de Moçambique e na própria página do Kugoma.
As longas-metragens seguem um caminho diferente: são enviadas directamente para a equipa por correio electrónico.
Dois requisitos que costumam apanhar candidatos desprevenidos:
- Direitos de autor da música. A submissão exige que o realizador detenha os direitos de qualquer música usada no filme. É a razão mais comum para desqualificação em festivais, e evitável com planeamento.
- Autorização para exibições parceiras. Realizadores e produtores moçambicanos que submetem curtas autorizam automaticamente a exibição em parcerias do festival, incluindo estações de televisão locais e a plataforma Netkanema.
Nenhuma das categorias tem prémio monetário, como já referido — algo que vale ter presente ao decidir onde investir tempo de candidatura.
Por que o Kugoma importa
Há uma tentação em tratar festivais pequenos como notas de rodapé. Seria erro grosseiro no caso do Kugoma.
Dezasseis anos de continuidade num país onde a produção audiovisual enfrenta constrangimentos reais de financiamento é, por si só, uma conquista. Mas o mais relevante é o modelo: um fórum que premeia novos autores, que trabalha a memória do cinema nacional, que abre espaço aos PALOP e ao Brasil, e que agora também ajuda a desenvolver projectos antes de eles existirem.
O cinema moçambicano não se constrói apenas com filmes. Constrói-se com estruturas que garantem que o filme seguinte tem para onde ir.
E você, acompanhou alguma sessão desta edição? Que filme mais o marcou? Conte nos comentários. Continue no CineChave: cobrimos o cinema global e também o que se faz por cá.


