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ToggleUm boneco gigante numa caverna real da Grécia. Dublões de dois metros ao lado de artistas de metro e meio. Jet-skis a fazer redemoinhos à volta de um navio verdadeiro. Milhares de LEDs em forma de triângulo a imitar fogo, porque fogo a sério era perigoso demais.
Nada disto é computação gráfica. É tudo o que aconteceu de facto diante das câmeras de A Odisseia. E é por isso que tanta gente anda a procurar como funcionou a produção de A Odisseia.
Quando a designer de produção Ruth De Jong perguntou a Christopher Nolan quais seriam os limites para construir os cenários do filme, ele respondeu que o limite era o mundo inteiro. E, segundo a Exame, foi exatamente assim que a equipe trabalhou: 91 dias de filmagem, seis países, e a decisão de erguer fisicamente quase tudo o que aparece na tela.
Neste artigo você vai entender a produção de A Odisseia cena por cena — como cada momento impossível foi realizado sem computação gráfica, e onde, honestamente, o digital ainda entrou.
A regra que guiou a produção de A Odisseia
Christopher Nolan tem uma reputação construída ao longo de duas décadas: evitar CGI, tela verde e qualquer coisa que separe o ator daquilo que ele deveria estar vendo. Já tinha feito isso em Interestelar, Dunkirk e Oppenheimer.
Na produção de A Odisseia, Nolan levou a regra ao extremo.
O raciocínio é simples e vale entender antes dos exemplos: quando um ator olha para uma marca verde numa parede e finge estar aterrorizado, a reação é atuação. Quando ele olha para um boneco de vários andares de altura que se move e projeta sombra real no chão, a reação é reação.
Nolan também é declaradamente contrário ao uso de inteligência artificial no cinema. Em declarações recolhidas pela Exame, comparou a IA a um cavalo de Troia — algo que se acolhe no dia a dia e que depois se transforma em outra coisa, mais sombria. Uma metáfora que, num filme sobre a Guerra de Troia, dificilmente foi acidental.
Antes de entrar nos exemplos, uma nota de honestidade que a maioria das manchetes ignora: dizer que a produção de A Odisseia dispensou CGI não é dizer que o filme tem zero computação gráfica. Tem quase nenhum, e usado para funções muito específicas. Voltamos a isso no fim do artigo.
Cavalo de Troia: a primeira prova da produção de A Odisseia
A sequência de abertura da produção de A Odisseia é das mais desconfortáveis do filme — e foi feita da forma mais desconfortável possível.
Nolan abre o filme com os soldados gregos escondidos dentro do cavalo de madeira, enquanto os troianos o arrastam para dentro da cidade. Em determinado momento, a estrutura está meio submersa, e os guerreiros estão espremidos, em silêncio, a respirar por canudos para não se afogarem.
Como foi feito: o cavalo foi construído como estrutura física real e oca. Em vez de rodar num estúdio com tela verde, os atores entraram literalmente dentro dele e filmaram no espaço apertado, como detalhou a Exame. As cenas de figurantes a puxar o cavalo até à água foram rodadas em Essaouira, no Marrocos.
Mas o detalhe mais revelador é outro. Segundo o AdoroCinema, o próprio Nolan e o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema entraram na estrutura com cerca de vinte atores. O ator John Leguizamo contou ao The Hollywood Reporter que ficou impressionado com a disposição do diretor para se meter ali dentro com toda a gente.
E não havia plano definido. Matt Damon revelou à CNN Brasil que, na véspera das filmagens, perguntou a Nolan como pretendia rodar a cena — e o diretor respondeu que iam entrar lá dentro e descobrir pelo caminho.
O resultado é o ponto: a claustrofobia que se vê no ecrã desenvolveu-se organicamente, porque estava a acontecer de verdade. Damon disse que, se tudo tivesse sido planeado ao milímetro, a energia não seria a mesma.
O Ciclope Polifemo: o maior desafio da produção de A Odisseia
Esta é provavelmente a proeza técnica mais comentada de toda a produção de A Odisseia.
O confronto entre Odisseu e o ciclope Polifemo poderia ter sido resolvido inteiramente em computador. Praticamente qualquer estúdio faria isso hoje. Nolan mandou construir um boneco.
Como foi feito: a equipe ergueu uma marionete gigante para representar a criatura, manipulada em cena. O ator Bill Irwin — nome respeitado do teatro físico e da tradição do clown americano — deu voz e presença ao ciclope, conforme registaram o Business Week e o ObaOba.
Uma nota sobre o tamanho: a maioria dos veículos brasileiros descreve o boneco como tendo cerca de 18 metros de altura. Uma fonte, no entanto, descreve-o como um animatrónico antropomórfico de seis por seis metros. É possível que os números se refiram a estruturas diferentes — a marionete e o mecanismo de suporte, por exemplo. Vale tratar a medida exata com alguma reserva.
O que não está em disputa é o efeito de tê-lo em cena. Na produção de A Odisseia, um boneco daquela escala projeta sombra real no chão da caverna, bloqueia luz de verdade, e obriga os atores a olhar para cima para o ponto certo. Nada disso precisa de ser simulado depois.
E a caverna também é verdadeira. As cenas foram rodadas na Caverna de Nestor, na Grécia, um sítio arqueológico impregnado de mitologia grega. Segundo o Cinepop, a produção chegou a divulgar um vídeo de bastidores mostrando o processo artesanal de construção e manipulação da criatura.
Os gigantes Lestrigões: a perspetiva forçada na produção de A Odisseia
No caminho de volta de Troia, a tripulação de Odisseu desembarca numa ilha e depara-se com os Lestrigões — gigantes canibais que, na tela, parecem ter cerca de quatro vezes a altura do herói de Matt Damon.
Na produção de A Odisseia, zero gigantes digitais.
Como foi feito: a produção combinou três recursos, e vale desmontá-los um a um.
1. Escalação por altura. A equipe contratou dublões com mais de dois metros para interpretar os gigantes. Ao mesmo tempo, vários soldados de Odisseu foram entregues a artistas com cerca de 1,50 metro. Só a diferença física já criava uma sensação natural de gigantismo antes de qualquer truque adicional.
2. Perspetiva forçada. Esta é a técnica central, e é mais antiga que o cinema sonoro. Funciona assim: a câmera não distingue tamanho de distância. Um objeto pequeno colocado perto da lente parece maior do que um objeto grande colocado longe. Ao posicionar os atores de estaturas diferentes em distâncias calculadas da câmera, o enquadramento engana o olho — o gigante fica em primeiro plano, o humano fica atrás, e a proporção entre os dois multiplica-se.
Na produção de A Odisseia, o truque exige precisão milimétrica. Basta um ator sair da marca para a ilusão desmoronar, e não há correção possível na montagem.
3. Cenários monumentais e sistemas de cabos. Como complementou a Exame, a produção construiu cenários de escala desproporcional e usou cabos para movimentar corpos, reforçando a diferença de tamanho.
Matt Damon explicou a técnica no podcast Happy Sad Confused, conforme relatou o Ei Nerd. E a dublê Devyn Dalton, de estatura menor, chegou a publicar vídeos de bastidores nas redes sociais mostrando a comparação de altura com os intérpretes dos gigantes.
O ataque de Cila: uma tarde inteira de trabalho
O ataque de Cila é uma das sequências mais violentas da produção de A Odisseia: o monstro arranca tripulantes do convés do navio enquanto redemoinhos se formam em volta.
Como foi feito: o coordenador de efeitos especiais George Cottle desenvolveu um sistema de tração por cabos capaz de içar rapidamente os dublões a partir do convés da embarcação. É o movimento vertical brusco que vende a ideia de que algo os agarrou de cima.
Os redemoinhos à volta do barco? Jet-skis. Motos de água a circular em padrão à volta da embarcação, criando a turbulência real na superfície.
O detalhe que mais impressiona vem de Matt Damon, citado tanto pelo ObaOba quanto pelo Business Week: a equipe concluiu toda a sequência numa única tarde de trabalho.
Pense no contraste, porque é aqui que a lógica da produção de A Odisseia compensa. Uma sequência equivalente feita digitalmente exigiria meses de pós-produção, dezenas de artistas de VFX e várias rondas de revisão. Cottle resolveu-a com cabos, jet-skis e uma tarde.
Os porcos de Circe: bonecos e próteses na produção de A Odisseia
A sequência em que a feiticeira Circe transforma homens em porcos é exatamente o tipo de cena que o público moderno assume ser digital — ou, mais recentemente, gerada por IA.
Na produção de A Odisseia, não é nem uma coisa nem outra.
Como foi feito: conforme detalhou a Exame, a produção recorreu a efeitos práticos, animatrónicos e próteses físicas. Os atores usaram materiais maleáveis e mandíbulas móveis — soluções que remetem diretamente à tradição do cinema de criaturas artesanal, antes da era digital.
O Diário do Pará confirma o mesmo: a cena dos porcos, com Samantha Morton como Circe, foi feita com bonecos reais.
A ilha de Circe, aliás, também é um lugar verdadeiro. As sequências foram filmadas nas Terras Altas da Escócia, nas regiões de Moray Firth e da floresta de Culbin, segundo o Seu Dinheiro.
Troia a arder sem uma única chama: os "piraedros"
Este é o exemplo mais engenhoso de todos, e o menos conhecido.
A sequência noturna da queda de Troia precisava da luz trémula e alaranjada de uma cidade em chamas. Fogo real numa produção daquela escala, com milhares de figurantes, seria um pesadelo de segurança — e, pior para Nolan, seria inconsistente entre takes.
Como foi feito: Hoyte van Hoytema e a equipe de fotografia inventaram um dispositivo do zero, batizado de pyrahedron — “piraedro”, em português.
O funcionamento, conforme descrito pelo Diário do Pará e pelo Leia e Assista: são placas de circuito em forma de triângulo, cravejadas com arranjos hexagonais de células de LED. Os LEDs emitem luz que imita a cor e — o mais difícil — o movimento do fogo.
Milhares destes dispositivos foram fabricados e enviados para o set.
Repare no que isto significa na prática. A luz que ilumina os rostos dos atores é uma luz que existe de verdade no set, com a temperatura de cor e o comportamento errático de uma chama, mas sem chama nenhuma. Não é iluminação adicionada depois; é iluminação capturada na lente.
O navio: a peça mais cara da produção de A Odisseia
Não há tela verde nas cenas de mar da produção de A Odisseia. Há mar.
Como foi feito: a embarcação principal tem 35 metros de comprimento e veio de Stavanger, na Noruega. Foi transformada num navio de guerra grego, recebendo ornamentos como decalques em bronze na proa e na popa, detalhou a Exame.
E não ficou parada num tanque de estúdio. O barco navegou da Escócia até ao Marrocos ao longo das filmagens, funcionando simultaneamente como cenário e como meio de transporte da produção. Segundo a Forbes, era um navio real e completamente apto a navegar.
O elenco pagou o preço disso. Conforme apurou o Leia e Assista, os atores que interpretavam a tripulação tiveram de aprender técnicas reais de remo e navegação à vela — não versões cinematográficas. Descobriram que mover um navio em alto-mar apenas com força muscular é genuinamente extenuante.
E havia perigo concreto: deixar cair um remo grande na água com o barco em movimento pode partir costelas ou atirar o remador borda fora. O filme retrata isso porque a equipe o viveu.
Um dado que resume a filosofia da produção: no primeiro dia de filmagens na água, na Grécia, os ventos sopravam a 60 nós. A produção decidiu avançar mesmo assim, sob o olhar incrédulo de observadores locais.
Troia construída em escala real, em Marrocos
A reconstrução da Guerra de Troia concentrou boa parte do trabalho de Ruth De Jong na produção de A Odisseia.
Como foi feito: a equipe aproveitou a vila histórica de casas de barro da província de Ouarzazate, no Marrocos, e ergueu ali uma estrutura de mais de um hectare — incluindo o Templo de Atena, portões, torres e escadarias, segundo a Exame.
Para os exércitos espalhados pelo litoral, a mesma lógica. Em vez de multiplicar figurantes digitalmente — a solução padrão de qualquer épico moderno —, a produção reuniu milhares de figurantes com figurinos completos para ocupar fisicamente os cenários.
Isso obrigou a um esforço paralelo: mais de cinco mil figurinos foram produzidos por uma equipe global, conforme o Diário do Pará. E o formato IMAX influenciou diretamente a escolha dos materiais — em 70 mm, tecido barato aparece como tecido barato.
O submundo filmado sob o sol da meia-noite
Para representar Hades na produção de A Odisseia, Nolan não construiu um cenário escuro. Foi para a Islândia.
Como foi feito: as sequências do submundo foram rodadas em junho, sob a luz constante e desconfortável do sol da meia-noite — o fenómeno em que o sol não se põe durante o verão ártico. Terreno desolado, vento e chuva.
As locações incluíram a península de Snæfellsnes, as praias de Hjörleifshöfði e a areia negra junto ao rio Markarfljót.
O raciocínio por trás da escolha, segundo o Leia e Assista, é elegante: Nolan queria que o reino dos mortos parecesse o mais longe possível do lar mediterrânico de Odisseu. Uma paisagem fria, vulcânica e remota faz esse trabalho sozinha — sem uma única correção de cor.
Para Ítaca, o processo foi igualmente concreto. A ilha de Favignana, perto da Sicília, foi escolhida depois de Ruth De Jong se lembrar de a ter visitado uma década antes.
A câmera que tornou possível a produção de A Odisseia
Nada disto seria tão exigente sem o formato escolhido.
A Odisseia é o primeiro longa-metragem da história filmado inteiramente com câmeras IMAX 70 mm. E isso impõe restrições brutais:
- Cada câmera pesa mais de 130 quilos
- Cada uma custa cerca de 500 mil dólares
- O magazine comporta apenas alguns minutos de película antes de precisar de ser recarregado
- O equipamento é tão ruidoso que precisa de uma caixa à prova de som; Matt Damon comparou o barulho, sem a caixa, ao de um liquidificador junto ao rosto
Some isso ao que a produção de A Odisseia exigiu: filmar em alto-mar, dentro de cavernas e em terreno vulcânico islandês. Os atores chegaram a transportar as próprias câmeras.
Há uma nota quase cómica no meio disto. Nolan já destruiu pelo menos três câmeras IMAX ao longo da carreira. Desta vez, segundo o Leia e Assista, fez questão de assinalar que nenhuma foi danificada — as máquinas sobreviveram à odisseia.
Até a trilha sonora fugiu do atalho
A lógica da produção de A Odisseia atravessou também o departamento musical.
Nolan pediu a Ludwig Göransson que não usasse orquestra, pelo motivo mais simples possível: os instrumentos da orquestra moderna não existiam na época retratada.
Para construir uma sonoridade coerente, Göransson alugou 35 gongos de bronze de tamanhos diferentes, segundo a Forbes. A trilha foi desenvolvida com instrumentos gregos — gongos de bronze, lira e a flauta aulos.
É o mesmo princípio dos piraedros e da perspetiva forçada, aplicado ao som: em vez de simular o passado, reconstruí-lo com o que existia.
Então onde é que o CGI foi usado em A Odisseia, afinal?
Aqui está a parte que quase nenhuma manchete conta, e que vale dizer com clareza: A Odisseia não é um filme com zero computação gráfica.
Conforme a Exame, os efeitos digitais foram usados de forma pontual, sobretudo para:
- Remover cabos de segurança — todos aqueles sistemas de tração de Cottle deixam cabos visíveis que precisam de sair da imagem
- Apagar equipamento técnico que não podia aparecer no plano final
- Complementar algumas sequências com elementos digitais adicionais
Ou seja: o digital entrou como ferramenta de limpeza e complemento, não como ferramenta de criação. A diferença é fundamental. O ciclope existiu, os gigantes existiram, os redemoinhos existiram — o computador apagou os cabos que os tornaram possíveis.
É por isso que a expressão mais rigorosa para a produção de A Odisseia é, na verdade, “praticamente sem CGI”.
Perguntas frequentes sobre a produção de A Odisseia
A produção de A Odisseia usou inteligência artificial? Não. Nolan é declaradamente contrário ao uso de IA no cinema, e as sequências que parecem geradas por IA foram feitas com efeitos práticos.
Qual foi o orçamento da produção de A Odisseia? Cerca de 250 milhões de dólares, o maior da carreira de Christopher Nolan.
Quantos países foram usados na produção de A Odisseia? Seis, ao longo de 91 dias: Grécia, Marrocos, Itália, Islândia e Escócia, além do Saara Ocidental.
O ciclope de A Odisseia é um boneco mesmo? Sim, uma marionete gigante manipulada em cena, com Bill Irwin dando voz e presença à criatura.
Como fizeram os gigantes Lestrigões? Com dublões de mais de dois metros, artistas de cerca de 1,50 metro nos papéis dos soldados, perspetiva forçada e cenários de escala desproporcional.
O navio de A Odisseia é real? Sim. Tem 35 metros, veio da Noruega, foi convertido em navio de guerra grego e navegou da Escócia até ao Marrocos durante as filmagens.
A Odisseia foi filmada em IMAX? Sim, e é o primeiro longa-metragem da história inteiramente filmado com câmeras IMAX 70 mm.
Por que a produção de A Odisseia importa
Há uma leitura fácil sobre a produção de A Odisseia: Nolan é um teimoso caro que faz as coisas do jeito difícil por capricho.
A leitura mais interessante é outra.
Cada uma destas decisões da produção de A Odisseia resolve um problema concreto de credibilidade. O boneco do ciclope projeta sombra real, então a luz da cena está certa. Os gigantes estão em perspetiva forçada, então os atores olham para o sítio certo. A câmera está no navio a sério, então o balanço da imagem é o balanço do mar. O fogo dos piraedros não é fogo, mas comporta-se como fogo diante da lente.
Quem vê A Odisseia não consegue nomear nenhuma destas coisas enquanto assiste. Mas repara na diferença.
E há um detalhe final na produção de A Odisseia que resume tudo: a maioria destes efeitos foi executada mais depressa do que a alternativa digital. A sequência de Cila levou uma tarde. A cena do cavalo foi improvisada no próprio dia. Fazer de verdade nem sempre é o caminho mais lento — às vezes é só o caminho que exige mais coragem para começar.
E você, tinha percebido que aquelas cenas de A Odisseia eram práticas, ou também achou que era computação gráfica? Conte nos comentários. Continue no CineChave: toda semana trazemos os bastidores e as explicações dos maiores lançamentos do cinema.
Leia também: [o final de A Odisseia explicado]
